As bookredes se tornam cada dia mais tóxicas

Nos últimos dias tenho esbarrado com um tipo de conteúdo que, sinceramente, me deixa pensando em que ponto as coisas desandaram: quando foi que as pessoas começaram a fiscalizar a leitura dos outros como se fossem donas de algum tribunal literário? Porque, aparentemente, agora existe uma patrulha digital decidindo o que é leitura “válida”, “adequada” ou “inferior”.
E tudo isso… por causa de livros. Livros. Algo que deveria unir, não segregar.

Como a Trish comentou — e expandindo ainda mais isso — precisamos encarar um dado simples e triste: a maioria dos brasileiros não lê sequer UM livro por ano. Nenhum. Zero.
E aí eu pergunto: se a porta de entrada para o hábito da leitura de alguém é justamente por meio desses livros que tantos adoram criticar, qual é exatamente o problema? Desde quando incentivar a leitura virou motivo de deboche?

Eu li Adeline.
Eu li Dino.
Gostei dos dois, por motivos diferentes.
E sim, no caso de Adeline, tive muitas considerações, incômodos e reflexões — porque esse é justamente o papel de uma narrativa complexa: provocar.
Um livro que te faz questionar, criticar, pensar, repensar, revisar seus próprios limites e valores… está cumprindo sua função.
Mas essa análise é pessoal. Individual. Intimista.
A crítica pertence a quem lê, não a quem fica sentado na plateia julgando o gosto alheio como se estivesse distribuindo selos de aprovação.

Leitura não é instrumento de elitismo intelectual.
Leitura não é ferramenta para humilhar o outro.
Leitura não é arma de superioridade.
Leitura é, antes de tudo, liberdade.

Liberdade de gostar, de odiar, de se emocionar, de abandonar na metade, de reler mil vezes… liberdade de escolher o que conversa com seu momento de vida.

E também é liberdade de fugir — porque livros são portas.
Portas pra outros mundos, pra outras realidades, pra outras vidas.
Portas que aliviam a mente, que acolhem a alma, que distraem, que curam, que desafiam, que informam.
Às vezes, leitura é só para se divertir. Às vezes, é pra aprender. Às vezes, é pra escapar. E às vezes é pra levar um soco emocional, como Adeline traz, ao explorar temas que acontecem de verdade, mas que a sociedade enterra porque é mais confortável não olhar.

E ainda assim, o que mais vemos nas bookredes é um comportamento que virou moda: o fiscal de c*, agora travestido de fiscal de leitura.
Gente que acredita genuinamente que existe um “nível” literário e que só quem lê certos autores está no topo da pirâmide imaginária que eles mesmos criaram.

E sabe qual é a parte mais irônica?
Essas pessoas defendem clássicos com unhas e dentes, como se fossem entidades sagradas intocáveis, mas esquecem — convenientemente — que muitos desses autores foram seres humanos deploráveis na vida real.
Gente racista, misógina, violenta, abusadora, gente que cometeu crimes de verdade.
Mas mesmo assim, os livros deles seguem sendo consumidos, respeitados, exaltados e até colocados em pedestais.

Então, por favor, vamos parar com a hipocrisia.
Se você pode ler autores clássicos que foram pessoas horríveis, por que alguém não pode ler um romance contemporâneo, um livro polêmico, uma fantasia simplista ou um “livro de dinossauro”?
Por que isso incomoda tanto?

Ninguém é obrigado a gostar de tudo — e está tudo bem não gostar.
Mas transformar isso em uma campanha de humilhação e deslegitimação da leitura do outro é só feio. É arrogante. É desnecessário.
E, principalmente: não ajuda em absolutamente nada.

O que ajuda é incentivar.
É criar pontes, não muros.
É acolher novos leitores, não espantá-los.
É entender que cada pessoa tem seu ritmo, sua fase, seu repertório e sua relação com a leitura.

Leitura não é competição.
Não é troféu.
Não é credencial de inteligência.

É vivência.

E se o primeiro livro que fez alguém pegar gosto pela leitura foi Dino, ótimo.
Se foi Adeline, perfeito.
Se foi fanfic, melhor ainda.
Se foi um clássico, parabéns.
Se foi um romance fofo, maravilhoso.
Se foi terror, fantasia, hot, policial, dark romance… que bom.
Porque o importante não é o que você lê, e sim o fato de que VOCÊ LÊ.

Então, sim, eu vou repetir: leiam tudo mesmo.
Leiam o que quiserem, sem culpa, sem supervisão, sem patrulha estética.
Leiam o que te diverte, o que te intriga, o que te cura, o que te desafia.
Leiam o que te transforma — ou o que simplesmente te faz esquecer do mundo por algumas horas.

Porque, no final das contas, a única leitura que realmente não agrega…
é aquela que você só faz pra se achar melhor do que os outros.threads

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